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Uma boa dose de café

Em um lugar distante, de beleza exuberante, uma cidade pequena, desabrochava com seus moradores, pessoas do campo e de paz.

Dentre eles, um jovem, no final de sua mocidade, ao ser convocado para a guerra longínqua por seu país, decidiu escrever uma carta para seu futuro grande amor.

Imaginando como seria essa pessoa, ele colocou em palavras seus sonhos e esperanças, se descrevendo e revelando o desejo mais secreto de sua alma... Ser o dono de um café, um pequeno lugar para reuniões, onde seus amigos, iniciando seus dias na lavoura, pudessem aquecer o corpo e sentir a energia que nos preparar para viver...

Escreveu também que, talvez, servisse almoço para os viajantes recuperarem suas forças.

Então, à noite, ele encontraria sua família, para juntos criarem momentos que ressoam na alma, no jantar com seu grande amor e suas crianças, falariam de tudo e sorririam em plena paz.

Depois, se deitaria para descansar e amar, fisicamente, o ser divino que guardava o pedaço de seu coração...

E assim seriam seus dias, serenos e felizes, descobrindo temperos em cada dia, sempre, iniciado com uma boa dose de café.

No final da carta, assinou com seu nome e sobrenome.

O rapaz enrolou as páginas como pergaminho e as colocou em uma garrafa de vidro, cujo rótulo dizia “licor de café”.

Fechando a tampa com uma rolha e cera de vela.

E em um momento qualquer, antes de encontrar seu pelotão, foi até a ponte de pedra, a mesma ponte que costumava sentar e perder seus pensamentos, e jogou a garrafa no riacho que cruzava sua cidade. Naquele dia a correnteza estava forte, por causa do desgelo da estação.

Então ele teve certeza que a carta encontraria pouso em um coração, e ao retornar, encontraria o calor existencial de quem lesse aquelas palavras, e juntos, construiriam aquele sonho e vida...


Algum tempo passou


Uma jovem, no final de sua mocidade, passeava pela ponte de pedras, naquela cidadezinha rural, onde sua família decidira morar, com medo da guerra e do que poderia causar.

Procurava pedrinhas com o olhar, pois costumava jogá-las da ponte, enquanto refletia sobre tudo.

Se surpreendeu com o brilho do que parecia vidro, no fundo do riacho, agora, meio seco pela estação.

A garrafa com a carta enrolada, ainda bem preservada, foi retirada com cuidado e levada para cima, onde, sentada na mureta de pedra, daquela mesma ponte, ela a abriu e leu suas palavras.

Encantada com a escrita, chorou de emoção, fechando seus olhos e cravando no coração aquele mesmo sonho…

Por coincidência, ou não, sua família plantava café e sua alma viu naquela descrição, um motivo sonhar.

Não sabia quem era aquele rapaz de objetivos vívidos e especiais, então, decidiu procurar…

Sabia que muitos jovens haviam ido para a guerra, antes mesmo dela ali morar.

Nos registros gerais, sabia que algo deveria encontrar.

Durante dias se empenhou em buscar informações, conseguindo acesso aos registros locais, horas lendo arquivos e ansiando por uma positiva resolução.

Seu coração disparou ao encontrar uma certidão, com mesmo nome da carta, e uma foto, era um homem bonito, provavelmente tão jovem quanto ela.

Mas o que leu derrubou sua ilusão...

Mandado para o combate, na primeira guerra, o rapaz, nunca retornou ao lar, dado como morto aos 22 anos.

Então ela chorou, por perceber à distância de décadas, com o homem que roubara seu coração.

Mas prometeu ali, diante do retrato, que não deixaria o sonho morrer...


Trabalhou duro, durante anos, e enfim, abriu seu café, em uma esquina da pequena cidade, com a carta emoldurada na parte atrás do balcão, para turistas e residentes, poderem apreciar, todas as palavras de um homem, que só fez sua terra e sua gente, amar…


Para aqueles que se deparavam com a história, pela primeira vez, ver o pequeno Leopoldo, entrar com sua mochila na mão, era tanta emoção que fazia os olhos transbordarem, por entender a homenagem ao herói e inspiração.

E para quem perguntassem, uma boa dose de café era servida, por cortesia, para aquecer a alma e renovar a motivação existencial.



 
 
 

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São Paulo, SP - Brasil

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