Flores e Espinhos
- afchagaswriter
- 10 de out. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 19 de nov. de 2025
O despertador tocou e o homem levantou, vestido com seu pijama de inverno, que não era nada luxuoso, mas o fazia se sentir especial, pois havia sido comprado por sua esposa para combinar com o dela e o das crianças, como nos filmes…
Trazendo uma pequena luz cinematográfica para uma vida real, cujo protagonista lutava para afugentar a monocromia e a dureza de sua jornada temporal.
Ele estava mais reflexivo nesses dias, talvez pelo aniversário de 50 anos que se aproximava, “crise da meia-idade” como alguns falavam, mas não era isso, ao contrário, se sentia plenamente satisfeito com sua história e se orgulhava das marcas de superação que a vida lhe entregou. Afinal, como sua mãe dizia, “cicatrizes, são representações de honra, pois representam vitórias! São traços que indicam sua caminhada e transformações”, era, sim, uma mulher sábia e muito carinhosa.
O sol ainda não havia surgido no céu, mas era essa sua rotina diária.
Meio cambaleante, foi até o banheiro, jogou água no rosto e se encarando brevemente no espelho, enquanto tentava acordar e escovar os dentes, começou um diálogo interno, como se fosse uma conversa com sua amada:
“A rotina diária é cansativa e deixa tudo meio cinza, você ainda dorme em nossa cama, quando eu levanto para mergulhar no padrão esquematizado para as vidas dos homens comuns.
Você também mergulhará, mais tarde, na sua própria rotina de mulher, cuidando de nossos filhos e lar, saindo para me ajudar… nos ajudar no sustento do lar… e dos nossos sonhos.
Eu deveria te dizer mais, o quanto sou grato por isso, pelas suas lutas e as incansáveis demonstrações de amor que você faz”.
Ele pensava enquanto se vestia e pegava a marmita na geladeira, pois a esposa sempre a deixava pronta para ele, mesmo nos dias em que o namorado do filho, dormia ali… “O Devorador”, como o apelidaram, pois o jovem parecia um saco sem fundo quando o assunto era comida… mas era um bom rapaz, que fazia seu menino sorrir.
***
O ônibus estava lotado, como sempre, e assim que teve a oportunidade de se mexer, colocou os fones no ouvido, não gostava de andar pelas ruas escutando música, pois havia perigos que só esperavam uma leve distração para acontecerem. Ele mergulhou em sua habitual seleção de músicas, rock nacional e internacional dos anos passados, em uma mistura que fazia sua alma se sentir jovem e forte.
Durante o percurso, a paisagem mostrava o nascer do sol, irradiando um convite imaterial para o dia ser bom, mesmo que o frio da nova estação já se instalasse na atmosfera, como um aviso da monotonia sazonal que se aproximava…
Ao descer em seu ponto, ele viu um arbusto repleto de espinhos e uma única flor vermelha, aproximando-se, pois era parte de seu caminho, seu diálogo mental recomeçou:
“Indo para o trabalho, eu parei para observar aquela última flor, caindo de seu antigo lar, restando apenas um arbusto repleto de espinhos… O frio da nova estação, tocando suavemente minhas bochechas e entrando em meu nariz até os pulmões, é revigorante e fortalecedor, me fazendo imaginar que estou indo para a batalha, como fazíamos antigamente”.
Olhando para frente, o céu já estava iluminado, seus pensamentos continuaram:
“Em casos assim, as memórias de nossos dias quentes, inundam minha mente, com aquela música que você tanto gosta de ouvir. Lembro-me de seu rosto, me mostrando pela primeira vez, esse fenômeno natural, que muda os tons da paisagem e nos deixa um pouco mais tristes e reflexivos. Pensando agora, nas luzes de quando éramos jovens… filhos… só amigos.
Crescemos juntos e saboreamos o amor em todas as suas estações, embalados por canções, hoje consideradas antigas e monumentos de eterna saudade, que, junto aos nossos corações, observam as cores perderem o brilho para a rotina comum.
Mas nós somos fortes, não nos deixamos levar pela manada social, entendendo que, somos diferentes desses transeuntes que agem como robôs, deixando de lado os sabores do viver… Por ser mais fácil, talvez.
Eu sou só um…
Mas não sou um deles.
É nosso refrão e nosso amuleto de salvação, pois ainda nos dedicamos a sonhar e lutar pelos sonhos, sejam eles infantis ou mais adultos, nossas almas imortais se recusam a desistir e se incorporar ao dito: viver por viver…
Não temos dinheiro, bens ou oportunidades de nos destacar, mas estamos juntos, sentindo o fantástico calor que nosso lar, construído com muito esforço e sonhos, nos proporciona… Todos os dias”.
Ele abriu um sorriso consciente, balançou a cabeça em gesto de gratidão e, fechando os olhos, respirou fundo.
“E sabe o que é ridículo?
Sou eu, agora aqui, com as marcas da idade em meu corpo, sentindo o frio da manhã, parado na calçada de uma rua qualquer, olhando uma pequena flor vermelha no chão de concreto cinza. Enquanto escrevo mentalmente uma carta para meu grande amor… minha eterna companheira, que me ensinou, quando ainda éramos tão jovens, a reconhecer os pontos de calor, em cada estação.
Abraçando os espinhos do caminho e fortalecendo nosso “eu” interior, para revigorar os sonhos que realizamos e ainda realizaremos em cores vivas e sabores mais intensos…
Acho que isso, sim, é felicidade!”.
Ele decidiu, que ao voltar para casa naquele dia, compraria flores para sua amada, só pelo prazer de observar seu sorriso se estender. Fazia isso ocasionalmente, pois entendia que o amor deve superar as dificuldades, trazendo alívio nas horas mais sombrias.
Capturar na memória o contraste dos dias comuns, em que passeamos entre flores e espinhos, é fundamental para o processo de viver bem.
Seguindo, claro, as linhas do destino com o coração repleto de afeição.
“É impressionante como o calor do amor faz diferença na percepção dos dias”.
Pensou ele, retornando a caminhar.





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