Sapatos de Palhaço
Olhando para o tamanho dos meus pés, eu parecia um adulto, com meus 1,95 metros de altura, aos 16 anos, era famoso na cidade...
O ano era 1970, meus pais eram pobres e nós três moravam em uma casinha de tábua, nas comunidades da cidade, longe o suficiente para os visitantes não perceberem nossa existência, mas perto o bastante para trabalharmos para os bem afortunados...
Tudo que eu queria era um sapato que não deixasse meus pés expostos ao frio do inverno e ao calor tórrido do verão...
Mas não tínhamos dinheiro para mandar fazer sequer um par, então, meus pais compravam o maior que encontrassem e nós os adaptávamos para mim.
Adaptar, nesse caso era fazer um buraco na frente para caber, às vezes colocando pedaços de algum outro, quando tínhamos.
O melhor dia da minha vida aconteceu quando o circo chegou à cidade, estacionado no terreno baldio perto de casa.
Consegui um emprego ajudando a levar caixas, e às vezes, a vender ingressos, já que eu ia pra escola e sabia ler e escrever.
Mas o melhor veio do senhor palhaço, assim ele gostava de ser chamado, e me deu seus pares de sapatos antigos, uma dúzia deles, alguns mal usados, e minha mãe, amorosa e inteligente como era, comprou uma graxa preta e logo tratou de deixá-los de cor única e lustrosos...
O cheiro da graxa e das expectativas, ainda ronda minha memória, especialmente quando ouso comprar sapatos novos.
Pois naquela primavera, pela primeira vez da minha adolescência, fui pra escola com os pés totalmente cobertos e seguros.
Separando, é claro, os pares que me acompanhariam no inverno e no verão.




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